Entre Pais, Símbolos e Escolhas
Ou: The Batman e Superman, o mesmo filme em outra fonte
Recentemente eu reassisti Superman (2025) e The Batman (2022) e acabei percebendo que os dois filmes são bem parecidinhos, fora o óbvio de serem filmes de super-herói, é claro.
Superman (2025) apresenta um Clark Kent mais jovem, já atuando como Superman, tentando conciliar quem ele é como pessoa com o símbolo que o mundo projeta nele. O filme não é sobre origem, mas sobre identidade, legado e escolhas. Clark carrega o peso do que herdou de seus pais, tanto de Krypton quanto da Terra, e precisa decidir até que ponto seguir esses exemplos e até que ponto construir seu próprio caminho. A história coloca o Superman menos como um ideal inalcançável e mais como alguém aprendendo o que significa ser bom em um mundo que nem sempre recompensa isso.
The Batman (2022) acompanha um Bruce Wayne ainda no começo da sua trajetória como Batman, em um momento em que ele confunde justiça com punição. O filme não trata o personagem como um herói pronto, mas como alguém preso à própria herança, à violência e às escolhas do pai. Ao investigar a corrupção de Gotham, Bruce é forçado a encarar que seguir cegamente o legado familiar pode causar mais dano do que mudança. A história é menos sobre vencer o crime e mais sobre entender que tipo de símbolo ele quer ser.
Superman não é estadunidense. Ele é um alien, um imigrante. Clark Kent não existe e todos os seus documentos são forjados. Superman não luta por um país nem por seus ideais. Um imigrante criado por pessoas comuns, usando poder não para governar, mas para proteger quem nunca é protegido.
Ele nasce em 1938, em Action Comics #1, criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, dois filhos de imigrantes judeus pobres, em plena Grande Depressão. O filme deixa bem claro como Clark não quer ser mais um super-herói americano como a Gangue da Justiça ou todos os outros que vieram antes. Suas cores podem até remeter à bandeira, mas ele nunca será como o Pacificador ou outros que carregam o símbolo da América.
O Batman surge alguns anos depois, em 1939, em Detective Comics #27, num contexto parecido, mas como uma resposta quase oposta ao mesmo mundo. Se o Superman nasce da fantasia de poder coletivo, o Batman nasce da fantasia de controle.
No filme de 2022, Bruce Wayne é recluso, não dorme, mal se comunica, não se importa mais em manter a imagem da sua família. Tudo o que ele procura é vingança, ele procura mais do que tudo respostas.
O Charada nasce do abandono. Ele é produto direto de um sistema que prometeu cuidado e entregou esquecimento. Sua obsessão não é só com o Batman, mas com Gotham como estrutura: políticos, empresários, famílias tradicionais que enriqueceram explorando a cidade. Ele quer expor a verdade, arrancar a máscara da cidade, forçar todo mundo a olhar.
Lex Luthor nasce do outro lado da mesma moeda. Ele é a elite. É o homem que venceu o sistema e, ainda assim, odeia a ideia de alguém existir acima dele. Para Lex, o problema não é só a corrupção humana, é o Superman. Um ser que não pediu permissão, não acumulou capital, não herdou poder, simplesmente existe e quebra a lógica de mérito, controle e hierarquia.
Charada odeia o Bruce Wayne, mas almeja ser alguém como o Batman. Lex Luthor odeia o Superman, mas reconhece o valor de Clark Kent.
Nos dois filmes, a relação com os pais é o ponto de ruptura que define tanto os heróis quanto seus vilões. Não como trauma isolado, mas como herança mal resolvida.
Em The Batman (2022), Bruce Wayne começa o filme acreditando numa versão quase mítica dos próprios pais. Thomas e Martha são, para ele, símbolos de bondade interrompida, uma promessa de Gotham que morreu junto com eles. Essa idealização sustenta o Batman como figura de vingança. Só que o filme desmonta isso aos poucos. Bruce descobre que o pai não era limpo, que usou o sistema corrupto que dizia combater, que o nome Wayne também está manchado.
O vilão, o Charada, é o espelho direto disso. Enquanto Bruce cresceu cercado de dinheiro, mesmo órfão, o Charada cresceu esquecido pelo mesmo sistema que os Wayne ajudaram a manter. Os dois perderam os pais. A diferença é que um herdou um império e o outro herdou o abandono. Quando o Charada aponta o dedo para Bruce, não é só acusação, é identificação. Eles nasceram do mesmo erro estrutural.
No caso do Superman, isso aparece de forma diferente, mas igualmente central. Em Superman (2025), a herança dos pais não é só emocional, é moral. Clark carrega duas figuras paternas ao mesmo tempo: Jonathan Kent, que ensinou empatia, cuidado e limite, e Jor-El, que representa legado, destino e responsabilidade cósmica. O conflito do filme gira em torno de como conciliar essas duas vozes sem ser engolido por nenhuma. Clark não quer ser apenas o que esperam dele.
Selina Kyle e Lois Lane ocupam um lugar parecido nos dois filmes, mesmo sendo personagens muito diferentes. Elas não existem para “humanizar” os heróis, mas para puxá-los de volta para o mundo real, para fora do mito que eles mesmos criam.
Em The Batman, Selina é alguém que viveu a cidade por baixo. Ela conhece Gotham pelo abandono, pela exploração, pela violência cotidiana. Diferente de Bruce, ela não tem luxo para tratar a cidade como símbolo ou missão abstrata. O que move Selina é sobrevivência, perda e raiva muito concreta. Ela não fala de justiça como conceito, ela fala de pessoas que desapareceram e ninguém se importou. Ao se aproximar de Bruce, Selina escancara o privilégio dele. Ela é o lembrete constante de que a dor não é teórica e que nem todo mundo pode se dar ao luxo de escolher como lutar.
Lois Lane cumpre um papel parecido, mas por outro caminho. Lois é totalmente humana, sem trauma mítico ou fantasia de vigilância. O poder dela está na curiosidade, na ética e na recusa em aceitar versões prontas da realidade. Ela não idolatra o Superman e não tem medo dele. Ela trata Clark como alguém que precisa explicar suas escolhas, não como um salvador acima de crítica. Enquanto o mundo projeta expectativas no Superman, Lois insiste em perguntar o que ele quer e por quê.
Jim Gordon é a exceção, mas uma exceção solitária. Ele não é o “bom policial” que resolve tudo, é alguém tentando sobreviver eticamente dentro de uma estrutura apodrecida. Gordon acredita em regras, mas sabe que elas já foram quebradas antes dele chegar. A parceria com o Batman não é baseada em confiança plena, é baseada em necessidade. Eles sabem que estão usando um ao outro para chegar a alguma coisa que o sistema sozinho não consegue alcançar.
Aos poucos, o filme mostra que nem mesmo essa aliança é confortável. O Batman percebe que atuar só pelo medo não muda a cidade. Gordon percebe que seguir o protocolo não impede a injustiça. Os dois estão presos entre fazer o que é certo e operar dentro de algo que já nasceu errado.
No caso do Superman, a chamada “gangue da justiça” funciona de outro jeito. O mundo ainda não sabe muito bem o que fazer com alguém como ele. Não existe uma estrutura pronta para absorver o Superman. O que existe é uma tentativa constante de enquadrá-lo: politicamente, militarmente, simbolicamente.
A diferença central é que o Superman não precisa dessas instituições para agir, mas sofre pressão constante para legitimá-las com sua presença. Ele é convidado a ser selo de aprovação. Onde o Batman atua nas sombras porque a polícia falhou, o Superman é puxado para a luz para que o sistema pareça funcionar melhor do que realmente funciona.
Isso cria um contraste interessante. A GCPD em The Batman quer usar o Batman enquanto finge que não precisa dele. Já as instituições em torno do Superman querem usar o Superman enquanto fingem que conseguem controlá-lo. Em ambos os casos, o herói vira ferramenta de um sistema que não quer mudar de verdade.
Jim Gordon representa a tentativa honesta de reforma por dentro. O Superman representa o medo de uma força que não pode ser totalmente institucionalizada. E o Batman representa a consequência direta da falência institucional.
Os dois filmes são recheados de personagens, mas os vilões nunca perdem o destaque. Em Superman, temos o Ultraman. Ele é um clone de Clark, bizarro, calado, e quase desaparece no meio de outros personagens, mas não deixa de ser uma grande ameaça. Ele representa, ali naquele momento, o que o mundo pensa de Kal-El: mais um alien que veio pra América, mais um símbolo corrompido. É o “e se” que assombra o Superman o tempo todo: e se eu aceitar o papel de autoridade absoluta? E se eu parar de ouvir?
O Charada, em The Batman, faz esse papel pelo outro lado. Ele não tem poder físico, não tem status, não tem símbolo reconhecido. O que ele tem é ressentimento, método e uma leitura muito clara das falhas do sistema. Ele também quer ser visto como resposta. Ele também quer ser símbolo. A diferença é que, enquanto o Ultraman representa o excesso de poder e a falta de humanidade de Lex, o Charada representa o excesso de abandono. Um nasce da loucura de um homem levado ao fundo do poço pela inveja, o outro nasce do abandono da elite com as classes mais baixas.
Acho muito importante, nesse momento em que a gente tá vivendo, lembrar que por mais que as histórias em quadrinhos sejam, sim, muito importantes, elas ainda existem num contexto maior. Batman sempre vai ser um aristocrata que brinca de detetive e tenta seu melhor pra manter sua cidade a salvo. Superman sempre vai ser um imigrante que luta por quem não tem forças pra lutar.
No mundo real, não temos heróis. Somos nós por nós mesmos. Não espere alguém vir do céu pra te salvar, nem alguém sair das sombras pra lutar por você. Talvez a coisa mais punk rock que tu possa fazer agora seja continuar vivendo e lutando todos os dias por um mundo onde órfãos e imigrantes possam ter uma vida digna e onde bilionários e aristocratas não existam mais.



CARALHO! Nunca tinha pensado nesses paralelos. Excelente texto e excelente análise.